Conflito Paquistão – Índia: as duas versões

Apesar das raízes do conflito entre o Paquistão e a Índia poderem ser procuradas em níveis mais profundos, elas são essencialmente religiosas e terão sido desenterradas durante o processo da saída do Reino Unido da região.

Após a Segunda Guerra Mundial o Reino Unido decidiu conceder a independência total à sua colónia da Índia, que incluía o actual Paquistão. A ideia inicial dos britânicos passava por manter a unidade do território e pela criação de um novo país, um conceito a que era favorável o guia espiritual e activista político Mahatma Gandhi.

Contudo, uma série de manobras nos bastidores da cena política conduziram à independência do Paquistão enquanto nação, uma separação ditada pelas diferenças religiosas entre as comunidades e acicatada pelas tensões que emergiram durante o complicado período que antecedeu a retirada do Reino Unido da região.

A violência eclodiu e os massacres sucederam-se. Existiram vítimas um pouco por todo o lado. Os muçulmanos que residiam em áreas de maioria hindu foram atacados por multidões enraivecidas e o mesmo sucedeu com os hindus que habitavam no actual Paquistão.

As notícias alastraram como um rastilho de pólvora e conduziram à criação de novos focos de violência. Quando por fim chegou o dia da independência, que marcou a conclusão da conturbada época conhecida como Partição, tinha sido gravado na memória colectiva de ambas as populações um registo de animosidade que demorará muito tempo a ser apagado. Estima-se que 13 milhões de pessoas tenham mudado compulsivamente de zona de residência e 1 milhão poderá ter perdido a vida em resultado da violência gerada.

Essa memória associada a disputas territoriais de zonas tradicionalmente habitadas por hindus e muçulmanos – como a província de Caxemira –  conduziu a vários conflitos armados entre as duas nações que, recorde-se, estão dotadas de armas nucleares.

Paquistão Índia: a Perspectiva Paquistanesa

Conflito Paquistão Índia
Conflito Paquistão Índia

Apesar de um longo passado comum, a chegada do Islão a vastas áreas do que é hoje o Paquistão criou um sentido de entidade própria que afastou os muçulmanos dos seus vizinhos hindus. A presença do Reino Unido enquanto potência colonizadora manteve um certo sentido de unidade, mas à chegada ao século XX as vozes que advogavam a independência do Paquistão, como um Estado islâmico separado da Índia, ganharam força.

Apesar das grandes diferenças culturais e históricas entre algumas das regiões que hoje compõem o Paquistão, muitas pessoas sentiam mais em comum, por via da religião, com paquistaneses de zonas remotas, do que com os vizinhos hindus com que durante séculos partilharam a mesma cidade.

Ora com o anúncio da retirada do Reino Unido e a aproximação do momento da independência, estes sentimentos agitaram um fervor nacionalista e um imenso entusiasmo popular. A promessa de um Paquistão independente tornou-se uma paixão. Mas se em ambos os lados existiam adeptos a favor e contra a Partição da colónia britânica em dois países, o sentimento unionista era mais forte do lado hindu, e muitos paquistaneses sentiam aí uma ameaça de domínio e subjugação, fácil de compreender pelo desequilíbrio demográfico de ambas as comunidades.

A violência – apesar de mútua – que se desencadeou naquele período quente de 1947 terá contribuído para sublinhar esses receios, e quando o príncipe de Caxemira, uma região habitada maioritariamente por muçulmanos, optou por se unir à Índia, os paquistaneses reagiram. Na realidade, a questão de Caxemira mantém-se por resolver até hoje. A maior parte desse território foi mesmo integrado na Índia, mas os paquistaneses nunca se conformaram e as guerras que se sucederam entre os dois países deixaram marcas que ameaçam perpetuar-se.

Existe ainda a questão do Bangladesh, inicialmente parte do Paquistão, apesar de se encontrar fisicamente do outro lado do subcontinente indiano, e que decretou posteriormente a independência, seguindo-se uma relativamente curta guerra de secessão. Ora os paquistaneses apontam o dedo à Índia, que acusam de ter precipitado a situação.

Paquistão Índia: a Perspectiva Indiana

A desconfiança que os indianos sentem em relação aos seus vizinhos paquistaneses tem múltiplas razões. A memória colectiva tem presente os acontecimentos de 1947, que antecederam a independência de ambos os países, com a imagem de hindus fugindo de áreas de maioria muçulmana, tentando alcançar a segurança na actual Índia.

Além disso, os indianos viram com consternação o levantamento de um nacionalismo com traços de religiosidade que ocorreu no actual Paquistão na primeira metade do século XX. Essa corrente política advogava a independência de um Paquistão islâmico, separado a um só tempo do domínio colonial e do potencial controlo da imensa massa demográfica de hindus a que na altura se encontravam agregados.

A este nacionalismo opuseram-se grupos igualmente radicais do lado hindu e o líder espiritual Mahatma Gandhi acabou por ser vítima de uma destas facções, que não tolerou a sua postura apaziguante e de tolerância para com os muçulmanos e que o assassinou em Delhi.

Com a Partição da colónia britânica, para além de toda a violência popular, criou-se um cenário que potenciou hostilidade para o futuro e que causou directa ou indirectamente os conflitos armados entre as duas nações. A região de Caxemira encontrava-se numa linha de fracção entre o que se configurava vir a ser o Paquistão e a Índia. Com uma população mista, existiam ali todas as condições para um conflito em larga escala e de facto assim aconteceu: os termos da independência concedida pelo Reino Unido previam que os líderes das diversas regiões que se encontravam aglomeradas sob o chamado British Raj – a colónia da Índia – pudessem decidir se iriam ser independentes ou integradas na Índia e no Paquistão. Sucede que apesar da maioria da população ser muçulmana, o príncipe de Caxemira era hindu e optou pela integração na Índia. Os paquistaneses retaliaram de diversas formas, promovendo a sublevação das populações e, ao longo dos tempos, lançando diversas operações militares contra Caxemira, de forma aberta ou indirecta. Estas actividades foram sempre vistas pelos indianos como formas de agressão injustificada.

Por fim, as três guerras abertas entre o Paquistão e a Índia, com inúmeras escaramuças fronteiriças pelo meio, incendiaram ainda mais a opinião pública indiana em relação aos seus vizinhos paquistaneses.